Querido bloco de notas e cursor piscante na tela do computador,

Um céu amanteigado engole quase toda a angústia dessas palavras com uma anestésica e confortante preguiça. Eu costumo involuntariamente suspirar profudo quando me sinto assim: Parece que meu corpo quer expulsar o que a mente não respira.

Hoje eu recebi umas sacolas cheias de roupas caras. Aos poucos eu me condeno e volto a me familiarizar com toda a idéia de me vincular para sempre nisso. Eu só não queria ter que voltar a conviver com aquelas pessoas. Eu só não queria ter que voltar a conviver com aquelas pessoas e usar camisas listradas de seda.

Pessoas pequenas não deveriam trabalhar em ambientes formais.

Andei pensando na minha mania de falar com estranhos. Eu não sei se sou carente ou se desprezo tanto as pessoas a minha volta, que me viciei em conversar e cuspir intimidades com aqueles que moram longe e que me pareçam interessantes. Eu sou exibicionista e voyer mas consideravelmente frígido, ao menos, quando me comparo com alguns amigos que trepam como cadelas excitadas com tudo o que lhes aparece a frente de suas fuças.

Gostaria de admitir que escrevi para ele novamente antes que eu acabe não admitindo. Esconder esse tipo de coisa dentro da própria cabeça só torna tudo maior e mais desastroso do que realmente é. Foram uma ou duas frases, nada comprometor demais, mas o suficiente para carimbar na minha testa o quanto eu sou uma pessoa lelé da cuca.

Ignorei completamente essa semana mas irei parar com isso. Quero 14 de julho.

Amor,

Rajko

Apartamentos maiores
Rélogios com pulseira fina de couro
Inglaterra 1960
Panturrilhas de 36 cm.